Design e Método entre Eras
Com mais de duas décadas de atuação profissional e acadêmica em design, pude testemunhar transformações significativas no modo como projetamos, ensinamos e compreendemos essa atividade. A palavra design se tornou onipresente, estendendo-se de produtos industriais a bolos, sobrancelhas e flores. No entanto, o que ainda permanece pouco compreendido é sua essência: design é método. Design é caminho. Este material nasce da necessidade de reafirmar essa dimensão metodológica, articulando as bases históricas e conceituais do design com as novas possibilidades abertas pela inteligência artificial.
1. Antes da Indústria: o tempo e o valor dos objetos
Durante séculos, a produção de bens era determinada pela disponibilidade de tempo, pelas condições técnicas manuais e pela herança cultural dos ofícios. Sapatos, cadeiras, roupas, ferramentas — tudo era feito por artesãos e mestres, com conhecimento transmitido oralmente e experimentado na prática. Os materiais eram escassos, e o tempo de produção, extenso. Roupas, por exemplo, exigiam não apenas o tecido, mas o acesso às fibras, à fatura artesanal e à logística rudimentar de distribuição. Assim, eram consideradas artigos de alto valor e, muitas vezes, deixadas como herança em testamentos.
2. A Primeira Revolução Industrial: a lógica da máquina
Por volta de 1760, na Inglaterra, teve início a Primeira Revolução Industrial. A introdução da máquina a vapor, especialmente na indústria têxtil, acelerou a produção e barateou os custos. O que antes era feito por dezenas de artesãos passou a ser operado por operários junto a engrenagens, teares mecânicos e caldeiras. A cultura visual do mundo também mudou: surgiram novos materiais, novos produtos, novos modos de vida. Pela primeira vez, a forma de um objeto passou a ser condicionada por sua produção mecanizada e não pela mão artesanal.
3. Segunda Revolução: padronização e consumo
A partir de meados do século XIX, uma nova etapa industrial se consolidou. A eletricidade, os derivados do petróleo e a produção em massa deram origem à chamada Segunda Revolução Industrial. Produtos como o automóvel passaram a ser feitos em linhas de montagem padronizadas, como o Ford T, que nos anos 1920 compunha metade da frota automotiva dos Estados Unidos. Essa nova era exigiu não apenas conhecimento técnico, mas também a necessidade de projetar. É nesse contexto que o design começa a surgir como campo sistematizado.
4. O nascimento acadêmico do design: Bauhaus e Ulm
Com a mecanização e a massificação, surge a necessidade de unir arte, ofício e indústria. A Bauhaus, fundada em 1919 por Walter Gropius, promoveu essa integração e revolucionou o ensino do projeto. Seus mestres, entre artistas e engenheiros, propuseram uma forma de pensar o design que articulava estética, função e produção. Posteriormente, a HfG Ulm (1953-1968) levou essa lógica ainda mais longe, propondo um design fundamentado em métodos científicos, na racionalização do processo e na função social do projeto.
5. A industrialização brasileira e os primeiros cursos
No Brasil, a industrialização ganha fôlego com Juscelino Kubitschek e seu projeto de desenvolvimentismo nos anos 1950. A necessidade de projetar para a indústria impulsionou a criação das primeiras escolas de design, como a ESDI (RJ) e a FUMA, atual Escola de Design da UEMG. Com currículos inspirados nos modelos europeus, mas inseridos em uma realidade distinta, os primeiros cursos ensinavam disciplinas como "da forma à protoforma", refletindo uma busca por fundamentação e identidade para a profissão.
6. A consolidação dos métodos clássicos
Na medida em que o design se firmava como atividade essencial ao desenvolvimento industrial e cultural do século XX, surgia também a necessidade de se estabelecerem métodos que conferissem estrutura, previsibilidade e qualidade aos projetos. A prática intuitiva e empírica dos artesãos foi, aos poucos, sendo substituída por abordagens sistemáticas, alinhadas ao pensamento científico e à lógica da engenharia de produção. A consolidação dos métodos clássicos de design representou, portanto, não apenas uma resposta às demandas da indústria, mas também um movimento de afirmação da profissão de designer como campo autônomo de conhecimento e prática.
Com o avanço da industrialização, especialmente após a Segunda Guerra Mundial, institutos de ensino, pesquisadores e profissionais passaram a desenvolver frameworks que organizassem o processo de projeto em etapas claras: definição de problema, pesquisa, geração de alternativas, avaliação e prototipagem. Essa estrutura cíclica e iterativa permitiu ao design se articular com outras áreas do conhecimento, como a ergonomia, a engenharia, o marketing e as ciências sociais, abrindo caminho para sua consolidação como disciplina acadêmica e prática profissional interdisciplinar.
No Brasil, além da histórica Escola Superior de Desenho Industrial (ESDI), a Fundação Mineira de Arte (FUMA), hoje Escola de Design da UEMG, teve papel decisivo nesse processo de institucionalização dos métodos clássicos. Fundada nos anos 1960 em Belo Horizonte, a FUMA desenvolveu uma proposta pedagógica que articulava teoria e prática, forma e função, com forte influência das escolas alemãs. Seus currículos pioneiros ajudaram a consolidar o ensino do design como campo metodológico estruturado, com disciplinas voltadas à prática projetual, análise formal e reflexão crítica sobre os processos de criação no contexto industrial e cultural brasileiro.
Para compreender a formação da base metodológica do design, é útil observar sua evolução cronológica, associada a autores e instituições que moldaram sua estrutura conceitual e pedagógica. A linha do tempo a seguir destaca os principais marcos históricos:
Linha do Tempo - Design, Método e Transformações
1760 – Início da 1ª Revolução Industrial
1850 – Início da 2ª Revolução Industrial
1919 – Fundação da Bauhaus por Walter Gropius (Alemanha)
1920s – Ford T domina o mercado automotivo
1953 – Fundação da HfG Ulm com Tomás Maldonado, Max Bill e Hans Gugelot
1963 – Criação da FUMA (Fundação Mineira de Arte), hoje Escola de Design da UEMG, em Belo Horizonte
1963 – Criação da ESDI no Brasil
1970s – Atuação de Gui Bonsiepe na América Latina, introduzindo o design como ferramenta crítica e de desenvolvimento
1981 – Bruno Munari publica “Das coisas nascem coisas”, popularizando o design como processo
Década de 1980 – Consolidação dos métodos de Mike Baxter e Karlheinz Lobach
1990s – Emergência do Design Thinking com a IDEO
2000s – Disseminação dos princípios de Dieter Rams e da abordagem sistêmica de Christopher Alexander
2020s – Expansão do uso da inteligência artificial no processo de design
7. A era digital: informação, conexão e complexidade
A partir dos anos 1990, a digitalização das comunicações e a expansão da internet criaram um novo ecossistema de produção, interação e consumo. Nesse ambiente hiperconectado, o design passou a lidar com uma nova camada de complexidade: interfaces digitais, redes de serviços, dados em tempo real e usuários globalmente distribuídos. A velocidade das mudanças tecnológicas exigiu respostas rápidas, e o campo do design foi convocado a repensar não apenas suas formas, mas seus modos de operar.
A cultura da informação, marcada pelo acesso instantâneo ao conhecimento e pela descentralização da autoria, promoveu o surgimento de novos perfis profissionais e novas metodologias. Surgem termos como UX (User Experience), UI (User Interface), design responsivo, design emocional e design de interação. Projetar deixou de ser apenas criar objetos tangíveis e passou a envolver sistemas, fluxos e experiências intangíveis. O designer moderno se vê desafiado a atuar como articulador entre tecnologia, negócios e comportamento humano.
Nesse cenário, a empresa IDEO ganha notoriedade ao consolidar o Design Thinking, uma abordagem metodológica baseada na empatia, experimentação, colaboração interdisciplinar e iteração constante. O processo proposto pela IDEO parte de uma escuta ativa das necessidades humanas, passa por uma fase criativa de geração de ideias e segue até a prototipagem e o teste em tempo real. Não se trata de um método fechado, mas de uma mentalidade projetual adaptável, que ganha relevância em áreas como educação, saúde, políticas públicas e inovação social.
Ao mesmo tempo, novas ferramentas digitais começam a fazer parte do cotidiano do designer: softwares colaborativos, plataformas de prototipagem rápida, modelagem 3D, realidade aumentada e ambientes digitais de simulação. A forma de projetar se fragmenta e se expande. Os métodos precisam dar conta de múltiplos dispositivos, múltiplos usuários, múltiplos contextos — muitas vezes de forma simultânea.
Esse período marca também o aumento da demanda por design centrado no ser humano, por soluções acessíveis, inclusivas e sustentáveis. A ética volta a ser pauta. O designer deixa de ser um executor de briefs fechados e passa a atuar como pesquisador, facilitador de processos, estrategista de inovação e defensor do interesse coletivo.
Portanto, a era digital não apenas amplia os desafios do design — ela transforma sua própria natureza. Projetar, neste novo tempo, é um ato de escuta, adaptação e construção coletiva diante da complexidade e da incerteza.
8. A revolução algorítmica: a vez da inteligência artificial
Vivemos hoje um novo salto tecnológico que redefine profundamente a prática do design. A inteligência artificial (IA) está deixando de ser apenas uma ferramenta de automação para se tornar uma parceira criativa e estratégica. Em um cenário de dados massivos, algoritmos generativos, modelos de linguagem avançados e aprendizado de máquina, a IA amplia a capacidade humana de observação, análise, simulação e criação.
No design contemporâneo, a IA pode atuar em diferentes camadas do processo: na etapa de pesquisa, com análise de tendências e mineração de dados; na fase de ideação, com geração automatizada de conceitos visuais, variações de layout, combinações cromáticas e formas complexas; na prototipagem, com simulações tridimensionais, otimização de materiais e detecção antecipada de falhas; e, por fim, na avaliação, com testes A/B automatizados, métricas de usabilidade e feedbacks em tempo real.
Ferramentas como DALL·E, Midjourney, RunwayML, Figma com IA, Uizard, Khroma, Adobe Sensei e ChatGPT já são utilizadas por designers de todo o mundo, não apenas para acelerar fluxos de trabalho, mas para expandir as possibilidades criativas e explorar territórios que antes demandariam muito mais tempo ou equipes multidisciplinares.
Essa revolução algorítmica, no entanto, exige uma revisão crítica dos fundamentos do design. Como garantir que as soluções geradas por IA sejam éticas, inclusivas e alinhadas às necessidades humanas reais? Como preservar a autoria e a intencionalidade projetual em um contexto de cocriação com sistemas inteligentes? E como formar designers que saibam tanto formular boas perguntas quanto avaliar criticamente as respostas oferecidas por algoritmos?
Além de competências técnicas, o designer da era da IA deve desenvolver pensamento sistêmico, leitura crítica de dados, sensibilidade cultural e responsabilidade social. O método deixa de ser apenas um caminho sequencial e passa a incorporar iteração constante com sistemas autônomos, simulações em tempo real e decisões baseadas em inferência probabilística.
Projetar com IA, portanto, não significa apenas substituir tarefas humanas, mas criar novas formas de colaboração entre humanos e máquinas. Trata-se de cultivar uma mentalidade ampliada, onde o designer atua como mediador entre dados, algoritmos, contexto e valores humanos. A revolução algorítmica não elimina o papel do designer — ela o reposiciona como protagonista de um novo modelo de criação: mais distribuído, mais veloz e, ao mesmo tempo, mais exigente em termos de ética, senso crítico e visão de futuro.
Sobre o autor
Marcos Breder
Marcos Breder é doutor em Design pela UEMG, onde atua como professor efetivo e coordenador de projetos no Centro Integrado de Design Social (CIDS/UEMG). Autor do livro Geração IA, é especialista em inovação, design thinking e empreendedorismo com foco em impacto social e educacional. Professor convidado da Fundação Dom Cabral, colabora com instituições como Petrobras, SEST SENAT e governos estaduais. Fundador do NOA Coworking e da BRD Empreendimentos, também é criador da metodologia Super Draft. Tem passagens por iniciativas como Empretec, Startup Farm e SEED, e mantém atuação voluntária na Fundação Logosófica.
